No princípio, Deus criou o R, a terra e os céus.
Ou, pelo menos, para muita gente da nossa geração em Data Science, foi assim que a história começou.
Quando olho para a trajetória da Murabei, não vejo apenas uma evolução tecnológica. Vejo uma mudança mais profunda: a mudança na forma de gerar valor.
Primeiro, o centro era o modelo.
Como tantas empresas que nasceram nesse universo, começamos em um tempo em que o diferencial residia na modelagem matemática. O valor estava na capacidade de estruturar problemas, formular hipóteses, analisar dados e construir modelos com rigor. Era o domínio da estatística, da inferência, da previsão, das séries temporais e dos modelos bayesianos. Naquele contexto, profundidade analítica era o ativo central. O R, linguagem emblemática da computação estatística, representa com precisão esse momento.
Depois, o centro virou a escala.
Não bastava mais ter um bom modelo. Era preciso processar mais dados, em mais velocidade, com mais variedade. A infraestrutura passou a importar tanto quanto a modelagem. Foi a era do Big Data, dos pipelines, dos ambientes distribuídos, dos data lakes e da engenharia de dados ganhando protagonismo.
O gargalo deixou de ser apenas estatístico. Passou a ser também arquitetural.
Sem escala, a analítica não se sustentava.
Mais recentemente, a inteligência ganhou interface.
A IA mudou de novo o jogo. E aqui a mudança não é apenas de performance de modelo. É uma mudança na forma de construir, interagir e operar.
A IA passou a lidar bem com linguagem, imagens, documentos, vídeo e outras fontes antes tratadas como não estruturadas. Mas não só. Ela passou a conversar, sugerir, resumir, escrever código, organizar informação, apoiar tarefas e acelerar fluxos de trabalho.
Em outras palavras: a IA deixou de ser apenas um motor escondido no fundo do sistema e passou a ocupar a superfície do trabalho.
Isso muda muita coisa. Muda a forma como se constrói solução. Muda a velocidade de prototipagem. Muda a interação entre equipes técnicas e de negócio. E muda, principalmente, a expectativa do cliente sobre o que uma solução deve entregar.
Na Murabei, nunca tratamos cada nova onda tecnológica como se fosse o fim de tudo o que veio antes. O Pumpwood – nosso sistema de desenvolvimento – foi sendo construído justamente para absorver essas mudanças sem perder consistência. Em vez de recomeçar do zero a cada novo hype, fomos consolidando uma base metodológica e tecnológica capaz de transformar avanço técnico em entrega concreta.
Esse é, para mim, o principal eixo da nossa evolução.
O modelo matemático continua importante, claro. Mas deixou de ser o fim da entrega. Passou a ser parte de um sistema maior, que precisa dialogar com contexto, processo, operação, interface e tomada de decisão.
Quando penso no futuro, não vejo a Murabei como uma empresa que saiu da Data Science para entrar na IA. Vejo uma empresa que amadureceu sua forma de gerar valor. Continuamos apoiados em ciência, mas cada vez mais capazes de transformar conhecimento analítico em sistemas completos, integrados e úteis para a decisão.
E talvez a melhor forma de descrever essa trajetória seja dizer que ela não aconteceu em linha reta.
Ela aconteceu em espiral.
Avançamos, incorporamos novas tecnologias, mudamos interfaces e ampliamos nossa capacidade de entrega. Mas voltamos o tempo todo a fundamentos que continuam centrais. Em um mundo em que a IA gera soluções com enorme velocidade, esses fundamentos se tornaram ainda mais importantes.
Porque, se construir ficou mais fácil, validar ficou mais difícil.
E é justamente aí que reaparece algo que, para muitos de nós, nunca deixou de estar presente: o espírito do R.
Não apenas como linguagem, mas como símbolo de um DNA analítico baseado em rigor, questionamento, transparência e profundidade. Esse DNA pode mudar de forma, incorporar novas camadas, conviver com agentes, LLMs, automação e novas arquiteturas. Mas ele continua existindo.
Não o R apenas como ferramenta.
Mas o R de rigor.
Notas:
R é uma das linguagens mais importantes da história da análise de dados. Criado nos anos 1990, ganhou espaço por oferecer um ambiente voltado à estatística, visualização e pesquisa aplicada, tornando-se uma ferramenta central para cientistas, universidades e áreas intensivas em análise quantitativa. Mesmo com o avanço de outras tecnologias, segue relevante por sua forte base metodológica e por continuar sendo um dos principais ambientes para desenvolvimento e aplicação de métodos estatísticos. https://www.r-project.org/
Pumpwood® é o framework da Murabei para Data Science, implementado como um Scientific Workflow System escalável, voltado ao versionamento, à rastreabilidade e à evolução contínua do processo de modelagem. https://github.com/Murabei-OpenSource-Codes