Pseudo-férias: Relatos práticos para um cientista de dados nômade (segurança e conectividade)

There is no such thing as paranoia. Your worst fears can come true at any moment.
Hunter S. Thompson

Começando esta história pelo caminho… como foi possível continuar trabalhando a partir de tantos lugares diferentes? Vale lembrar que estamos falando de ciência de dados e isso traz uma série de aspectos que não são totalmente compartilhados pela maior parte dos nômades digitais tradicionais (designers, jornalistas, tradutores, influencers, etc…).

Se você é um cientista de dados, você roda modelos matemáticos. Isso significa alto consumo de memória, de CPU ou mesmo de GPU e seu computador possivelmente é um tijolo. Esse tijolinho de estimação é na maioria das vezes um note para gamer. Em outras palavras, ele foi projetado para ficar no quarto em cima de uma escrivaninha desorganizada, resistir à migalhas de pizza e fazer viagens eventuais para a cama com bateria suficiente para manter o Netflix rodando até ele te perguntar de forma singela: Você continua me assistindo?

Claramente nenhum dos requisitos desta máquina envolve caber em uma mochila de viajem de 60 Litros, muito menos em uma mochila de ataque para que você possa caminhar pelo jardim botânico ou andar de bicicleta sem forçar aquele ponto da coluna que você nem sabia que existia antes dos 30 anos. Bom… tudo isso para te dizer, que sim, você vai sofrer mais que os demais. Lógico que hoje as coisas ficaramm mais fáceis com as nuvens e os notebooks da vida, mas ainda a prototipação tende a ser local na maior parte dos casos. Existem algumas iniciativas bem legais nos últimos tempos como o Kubeflow, Databricks e algumas plataformas específicas de cada nuvem como o SageMaker da Amazon e ML-Studio da Microsoft… Quem sabe não vão tirar esse peso das nossas costas um dia? Eu pessoalmente tenho algumas críticas bem sérias sobre a utilização dos notebooks (organização de código e desenvolvimento de testes por exemplo), mas fica para um outro post.

A segunda coisa que mais te diferencia dos demais nômades é o consumo de dados (banda de internet mesmo) e segurança de rede. Diferente dos seus colegas nômades digitais (influencers, tradutores, jornalistxs e blogueirxs de moda) você come gigabytes de café da manhã.Você baixará bases de dados e pacotes para poder trabalhar, possivelmente bem grandes (alguns GBs). Se você for um cara organizado talvez você tenha suas bases/pacotes localmente antes de ir viajar. Ainda assim, para qualquer deploy de modelo, possivelmente você terá que subir imagens docker em algum repositório (upload de mais alguns GBs também).

Voltando à segunda coisa, não basta ser conectado, tem que ser seguro. Você, meu caro DS, trabalha com dados sigilosos. Estamos falando, no mínimo, do faturamento dos últimos 5 anos por SKU de uma empresa ou, ainda, de alguns dados pessoais que (anonimizados de preferência seguindo normas da nova LGPDP) encontram-se no seu computador. Isso significa que você não pode usar qualquer rede pública de uma cafeteria hipster onde se reúnem os demais nômades: você é um lobo solitário com seu hotspot pessoal que nunca vai compartilhar ou vai achar alguma toca segura para se conectar de preferência por algum cabo.

 

Pseudo-férias: Relatos práticos para um cientista de dados nômade (segurança e conectividade)
Nunca divida seu hotspot seguro!

 

Acho que é isso, duas coisas: um bom note, conectividade e segurança …ops são 3 na verdade. Chegando à parte prática dos relatos, sobre o computador por enquanto não tenho como melhorar muito sua vida. Um conselho a ser levado em conta é: a bateria, tenha certeza que a sua está em bom estado; sobre conectividade posso relatar algumas coisas que eu vivi nesse caminho.

A primeira coisa que você deve lembrar é habilitar o roaming internacional da sua linha antes de sair do Brasil, porque afinal você é um DS responsável e usa autenticação de dois fatores em todas as suas contas. Habilitar o roaming no exterior é um processo possível, mas chato. Minha operadora só permitia habilitá-lo da linha que estava requisitando o roaming e… Tanã! – (era para ser uma onomatopeia) eu estava no exterior sem poder usar minha linha… deadlock. No fim mandei um e-mail para o suporte e consegui em 4 dias, menos mal. Deu tudo certo, mas me levou a entender uma outra coisa: a coisa mais valiosa depois do meu passaporte… era meu chip de celular.

Eu tive problemas para habilitar o roaming do celular e foi ai que me caiu a ficha (expressão anos 90): e se tivesse perdido meu chip. Bom não fui atrás de informação sobre como seria possível conseguir um chip da minha operadora no exterior, mas tenho certeza que ia dar muito, acho que muito mesmo, trabalho. Segue aqui um bom conselho, em algumas nuvens é possível criar senhas de emergência para o caso de não poder validar o segundo fator, assim crie essas senhas antes de ir viajar; em outros casos você terá que pedir ao administrador da nuvem para mudar o número a qual conta está associada. Está aí uma coisa meio chata “Olha preciso que você mude o telefone do 2o fator para +676 XXX…”… você vai ser o assunto do almoço do pessoal de infra.

Sobre a conectividade ainda, podemos falar sobre o celular. Use um celular de 2 chips pelo menos. Um dos chips você vai manter seu número cadastrado para as autenticações de dois fatores e no segundo você vai colocar um chip de alguma operadora local. O roaming internacional para o consumo de dados é caro e não muito rápido pelo menos o que verifiquei, posso estar errado. Utilizar a linha só para receber SMS não tem custo e já é o suficiente para fazer as autenticações de 2o fator. No exterior os planos de dados não são muito caros e a velocidade obtida por 4G chega a 10Mb/s. Não é um absurdo, mas já é o suficiente para subir uma imagem Docker no tempo de um café.

A segurança dos dados pode ser obtida ao não se utilizar redes inseguras e criptografando os dados. Nós trabalhamos utilizando Ubuntu como sistema operacional e nele existe a opção de criptografia de disco todo, o que fazemos em todos os computadores da empresa. Fora isso existe o Veracript, que é um programa multiplataforma (Windows, Mac e Linux) que cria discos virtuais a serem montados com um pen-drive no computador. Esses discos são descriptografados mediante uma senha e é extremamente difícil quebrar a criptografia sem ela. Não perca a senha!

Eu tive uma grande vantagem, sem querer fazer merchan: somos residentes em um WeWork. No WeWork é possível gastar alguns créditos para reservar espaços de trabalhos em outros escritórios do grupo, isto me permitiu ter um posto de trabalho com rede segura, café e chopp na Inglaterra, Holanda e Alemanha… sem contar que eu conseguia ir ao banheiro sem ter que me preocupar em deixar o note sozinho.

 

Pseudo-férias: Relatos práticos para um cientista de dados nômade (segurança e conectividade)
Ter que arrumar as coisas para ir no banheiro ou achar alguém para “olhar para você” é a pior parte de viajar sozinho trabalhando

 

Bom acho que é isso. Resumindo:

  • Não use redes inseguras como cafés, restaurantes, aeroportos ou do hostel quando estiver trabalhando (isso vale para quando não estiver viajando também).
  • Habilite o roaming do seu celular cadastrado nas autenticações de 2 fatores.
  • Leve um celular que tenha dois chips: uma para autenticação e um para alguma operadora de dados local.
  • Não perca seu chip da autenticação de 2o fator (sério isso é muito importante).
  • Criptografe tudo (bom isso vale para a vida não só para ser nômade).

 

Pseudo-férias: Relatos práticos para um cientista de dados nômade (segurança e conectividade)
As coisas mais importantes da viajem, passaporte, chip e meu falecido celular velho (tema de dos próximos posts)

 

Próximo post… Inglaterra! Espero conseguir escrever esse antes das próximas férias, está difícil achar tempo entre os projetos!